sábado, 12 de dezembro de 2009

Recalque gramatical

Certo dia, procurando um equivalente para a palavra incômodo, consultei o Minidicionário da Língua Portuguesa Melhoramentos, da editora Melhoramentos. Dizia o seguinte: adj. Desagradável; sm 1 – aborrecimento; 2 – importunação; 3 – menstruação. E então tive a certeza de que aquele dicionário havia sido escrito por um homem.

– Ai, Benhê, hoje não vou dar, estou naqueles dias.
– Que saco, mulher. Menstruação é sinônimo de incômodo!

Foi lá e escreveu. Só pode.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

A obra-prima

O casal de jovens namorados transitava tranquilamente por uma bienal de arte contemporânea. Ela era uma apaixonada por artes visuais. Ele, professor de educação física. Quando chegaram ao corredor de instalações latino-americanas, ele hesitou. Até então, havia aguentado sem reclamar o pavilhão das interativas, a galeria de fotos neoexpressionistas e as salas de vídeo-arte; tinha inclusive conseguido se entreter razoavelmente com um mp3 player e uma garrafinha de água mineral. Mas aquilo, aquilo era demais.

– Aí eu não entro, Bete, aí não!
– Por que não? – quis saber a namorada.
– Isso é muito chato! Que tal a gente sair agora e pegar um cineminha? Ainda tá passando aquele dos carros que se transformam em robôs...

– Nem pensar!

A moça mal cabia em si de tanta excitação.

Tudo era maravilhoso, extravagante, instigante – desde a cabine telefônica sobre a estrutura de um andaime, e a reprodução de uma cozinha com um vaso sanitário ao lado da geladeira, até um trenó de Papai Noel (com renas empalhadas) suspenso no teto de uma sala coberta de neve artificial. Quando chegaram ao final do corredor, no entanto, se depararam com o que seria a obra mais inovadora – e consequentemente genial – que aquela bienal já abrigara.

A moça teve a certeza de que jamais vira algo assim nos anais da arte contemporânea: era uma sala coberta com um grande montinho de areia, tábuas de madeira dispostas no chão a formar figuras geométricas diversas e, bem no centro, um carrinho de mão virado para baixo. Na plaqueta ao lado da obra, nenhum nome.

– Eu sabia! – gritou a moça – Só podia ser do Tchkil–X.
– Saúde!
– Você não sabe de nada. Tchkil-X é o maior artista plástico do momento. E ele nunca intitula seus trabalhos. Ele diz que isso acaba definindo significados à obra, e que a arte deve ser livre para a interpretação.

– Pra mim parece um montinho de areia.
– Claro, porque você não entende nada de arte. Está vendo o carrinho de mão virado? Ele transmite um sentimento de protesto à servidão. Uma recusa ao trabalho, um manifesto da classe proletária por séculos e séculos de exploração. É exatamente a cara do trabalho do Tchk.

O rapaz não se surpreendia mais com o tamanho conhecimento da namorada. Ainda assim, sentia que a arte não existia para a admiração de todos.

Um homem se juntou aos dois. Ficou em silêncio observando a obra e fazendo anotações em um caderninho. Tinha uma expressão sisuda e usava roupas totalmente anacrônicas. A moça o reconheceu no mesmo instante.

– Eu conheço você! – disse ela ao homem. – Você é o crítico de arte da revista Excêntricos!

O homem olhou para ela com desdém.

– Mas peço que não revele isso a ninguém – disse, num tom lamentoso. – Não gosto de ser aborrecido enquanto estou trabalhando.

– Isso é Tchkil-X, não é?
– Está me parecendo. Tem o estilo dele. E posso assegurar que, se for, é a sua obra-prima.

– Viu, Carlos, eu te falei!

O namorado deu de ombros.

– É sublime! – continuou o crítico. – Nunca vi algo de tamanha profundidade.

A moça concordou com um sorriso glorioso no rosto e os três ficaram em silêncio contemplando a obra, maravilhados.

Uma quarta pessoa se juntou a eles. Era um homem troncudo, suado, vestindo uma camiseta da copa de 94, com as mangas arregaçadas até os ombros, e um boné de posto de gasolina. Pediu licença ao grupo e se dirigiu para dentro da instalação. Subiu no montinho de areia e calmamente desvirou o carrinho de mão. Quando percebeu que os outros o olhavam com ar de total espanto, ficou sem jeito.

– Escuta – disse o homem, sem entender o que estava acontecendo – vocês não podem ficar aqui. Esta parte da galeria está em reforma.

sábado, 21 de novembro de 2009

Uma foto em palavras

O homem que passa olhando o relógio pela calçada molhada pela chuva; o carro que passa apressado pela avenida, desrespeitando o sinal; a música deprimente do garoto que toca violão no canto escuro do bar; e o senhor que flerta com a loira oferecida numa mesa logo à frente. E então eu, pensando sobre todas as histórias que permeiam a vida das pessoas ao redor. A consciência alterada pela bebida, os sonhos arruinados pela estagnação, o ouvido ofendido pelo rapaz do violão. Eis o quadro da miséria humana.